segunda-feira, 16 de março de 2015

                                     LITERATURA DE CORDEL

    A SEMENTINHA

Quando nós plantamos
Aquela sementinha 
Ela se transforma
Numa árvore  grandinha.
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Depois vem as folhas
Que vamos  admirar
E depois vem os frutos
Pra gente experimentar.
  <><><><><><><><><>
E na primavera temos
Muitas árvores e flores
Que nós admiramos
As suas belas cores.
  <><><><><><><><><>
Vamos cuidar da natureza
Para nós temos bom ar
Por que sem elas 
Nós não vamos respirar.
   Letícia Lima Santos

domingo, 11 de setembro de 2011

POEMA : DEUS CRIOU TUDO!!!

Ele inventou o mundo
Inventou o céu e o mar
E não deixa o sol e a lua
Nunca parar de brilhar.
    <><><><><><>
Inventou o verde das matas 
E a semente faz virar
Naquela flor bonita
Que solta cheiro no ar.
     <><><><><><>
Ele fez o ser humano
Para amar e cuidar
Fez os animais, as plantas
Para nos alimentar
      <><><><><><>
Foi assim que Deus criou
Vamos muito estudar
E quando crescermos 
Vamos todos trabalhar.
     Letícia Lima Santos

terça-feira, 6 de setembro de 2011

      O MATUTO


Eu  já um cabra taludo
De barba e tudo mais
Frouxo que nem um fole
Tinha medo de muié
Que mais parecia um mané   
Num parece ser verdade
Mais já quase ficando careca
Nunca tinha usado cueca
Nem prumode ir pra cidade
Só adespois que comecei a namorar Benedita
Comprei uns quinze metros de chita
E mandei a véia Lora
Desmanchar tudim em cirolas
Não prumode arrancar tocos
É que o namorado
As vezes precisa andar armado
E a cueca esconde um pouco
Num Domingo demanhãzinha
Bem cedim
Fui à casa da namorada
Lá no meio do caminho
Tive então que  parar
Prumode passar um telegrama
Corri pra detrás de uma moita de rama
Lá perto do matagal
E pra cueca não se sujar
Tive então que pendurar
Numa gaia de pau
Adespois que terminei o serviço
Novamente me vesti
E por não ser acostumado
Da cueca me esqueci
Amontei no meu jegue apressado
E quando cheguei lá
Benedita e sua mãe Expedita
Me mandaram eu entrar
Aí eu entrei
E por desaforo
Me deram um tamborete de couro
Daqueles do assento de couro
Só que o danado tava furado
Homem que só deu tempo eu me sentar
Pros documentos descer
No buraco do danado
Tô eu lá sentado
Na maior tranqüilidade
Sem tá sabendo de nada
Daqui a pouco ouço a véia dizer
Valei meu são Gonçalo
Arrepare o papo do galo
Pendurado na cadeira
A véia chamou a fia e disse
Corre minha fia
Vai conversar com o rapaz
Que prumode ele se entreter
Que eu vou aqui por detrás
Ver o que posso fazer
Benedita veio
Com umas conversas bonitas
Umas prosas
Uns arrodeios
Patrão!
Fio nessa hora que senti um repuxão tão grande
Que fui na lua e vortei
Benedita me alisava
Me acariciava
E a véia puxava
Despois de muito xodó
Chamego e sofrimento
Eu ouço a véia dizer
Aqui no papo deste galo
Eu não tô vendo nadinha
A não ser dois ovinhos de rolinha
Galo comendo ovo não pode ser
Vou Ter que mostrar pro povo
A véia foi na cozinha
Passou a mão numa peixeira
Aí eu tive que dar um pinote
Pulei por cima dum pote
Saí numa carreira tão danada
Que não olhei nem pra trás
Desse dia pra cá
Nunca mais me esqueci
Do diabo da muié
E de uma coisa não esqueço jamais
Pra sentar numa cadeira
Mesmo as calças tando inteiras
Eu passo a mão atrás.
     
                
CORDELZINHO
1-        Este menino é bonitinho
Todo mundo diz que é
Parece um sapo boi
Na boca do jacaré.

2-        Eu não vou na sua casa
Pra você não ir na minha
Você tem a boca grande
E vai comer minha galinha.

3-        Este também é bonitinho
Parece um pinto pelado
Saiu da casca do ovo
Todo fedido e melado.

4-        Esta menina é linda
É o amor da minha vida
Parece até que é
Uma privada entupida.

5-        E os olhos desta daqui
Me assusta de montão
Eles até se parecem
Com duas balas de canhão.

6-        Já esta é muito esperta
Parece um bicho preguiça
Tem nariz de papagaio
E olhos de lagartixa.

7-        E esta aqui que é magrela
Parece até um palito
Se ela fosse menino
Parecia um cabrito.

8-        Esta morena é bonita
Parece uma onça pintada
Tem pernas de saracura
É banguela e desdentada.

9-        Já esta que está aqui
É coisa bela de se ver
Seu rosto é bonitinho
Como bunda de bebê.

10-         Os olhos desta aqui
Atingem o meu coração
Estou até ficando doido
Tô morrendo de paixão.

11-         Sim, porque eu sou muito lindo
Sou um cara bonitão
Pareço até um galã
Artista de televisão
As mulheres só me chamam
Amor de meu coração.
                  Genário Gonçalves

            TRUPZUP

Eu não digo a ninguém que sou valente
Vivo longe dos grupos desordeiros
Sei tratar muito bem meus companheiros
Mas se um dia eu ficar de sangue quente
Chegarei no inferno de repente
Faço o diabo, chefão virar mulher
Mando logo prender o lúcifer
Solto almas de deuses e pagãos
Se o cão coxo cair nas minhas mãos
Só se solta com vida se eu quiser.

Qualquer dia do ano se eu quiser
Pra o céu eu farei uma jornada
E como a lua já está desvirginada
Olha eu posso tomá-la por mulher
Se acaso São Jorge não quiser
Olha eu tomo o cavalo que ele tem
Se a lua quiser me amar também
Dou-lhe um beijo nas tranças do cabelo
Deixo o santo com dor de cotovelo
Sem cavalo, sem lua e sem ninguém.

Sou o bote da cobra caninana
Sou dentada de tigre enraivecido
Sou granada que solta um estampido
Que se escuta por mais de uma semana
Sou picada de abelha italiana
Sou a bala que acerta o meio da testa
Sou incêndio que arrasa uma floresta
Sou a bruta explosão da dinamite
Sou micróbios feroz da meningite
Liquidando com gente que não presta.

Dei um murro nas ventas de um mal poeta
Que a cabeça voou fez piruetas
Passando por todos os planetas
Foi parar no reinado de um profeta
Nisso um santo que viu ficou pateta
A cabeça do cabra estava um facho
Uma alma gritou “ou velho macho”
São Pedro falou “o que é isso”?
Disse um anjo que estava junto a Cristo
É Trupzup zangado lá embaixo.

O lugar onde moro

O planeta onde eu moro
Se não estivesse poluído
Eu faria um desenho
No papel bem colorido.

No país onde eu moro
Tem todo tipo de gente
Tem bonito, tem feio,
Tem triste e contente.

Na cidade onde eu moro
Muitos anos antes
Saíram daqui
Muitos bandeirantes.

O município onde eu moro
É bem pequenininho
Mas eu cuido dele
Com muito carinho.

O bairro onde eu moro
Tem quatro docerias,
Nenhum supermercado
E uma padaria.

A rua onde eu moro
É calma e serena
Onde mora uma mulher
Que se chama Elena.

Na viela onde eu moro
Subo as escadarias
Para poder chegar
Em lojas e docerias.

A casa onde eu moro
Fica no fim da viela
É muito pequenininha
Mas eu gosto muito dela.

       Paula  Caldas 


ESCRAVIDÃO BULIDA


Respinga da escravidão que não termina
Que insiste, que explora, que aumenta e cresce
Maltratando a alma negra que padece
Nos grilhões da escravidão que assassina

Como é maldita a sorte, triste sina
Faz no homem renascer a sua prece
Qual riqueza que a alma empobrece
Retirando o amor da mãe menina

Escravidão que outrora era legal
Retirou do homem o bem maior
Sugou as veias, impôs sangue animal

A abolição que “buliu” no menor
No peito negro a lembrança imortal
Deixe morta a escravidão qu' inda é vital

                                Genário Gonçalves




de Tere Penhabe

Lá na terra donde eu vim
"A Jóia da sorocabana"
tal nome que lhe deu fama
muita história eu ouvi
e as que eu mesma percebi
mostravam sem hesitação
não podendo ser ilusão
que a morte é moça bonita
gosta até de fazer fita
p'ros medrosos de plantão.

Ora vestida de chita
de noiva ou camizolão
na estrada ou no portão
ninguém que a viu acredita
que essa mulher não exista
pra uns é fada madrinha
pra outros é o fim da linha
o fato é que ela passeia
dando uma ou volta e meia
e ainda faz gracinha.

Meu falecido contava
arrepiando-lhe os pelos
que a morte tem os cabelos
grandes como uma cascata
que os balança e faz bravata
ao passante amedrontado
trêmulo e todo molhado
sem recurso pra fugir
e sequer para admitir
o seu medo encalacrado.

Dizia ainda o finado
que a gargalhada da morte
para quem tem a má sorte
de vir a lhe conhecer
seja por ou sem querer
não é coisa que se esqueça
aconteça o que aconteça
fica gravado na mente
por mais que o peão seja crente
tende a tudo amolecer.

E esse fato que lhes conto
aconteceu de verdade
foi lá com nosso compadre
de tão bom ele era tonto
não merecia o confronto
que a malvada lhe impôs
não só um dia, mas por dois
atravessou seu caminho
chegando bem de mansinho
nunca foi o mesmo depois.

Foi na estrada vicinal
numa noite de serão
de uma a outra plantação
viajava o meu compadre
já pensando na comadre
que lhe esperava faceira
depois duma noite inteira
de sonhos de arribação
sabe Deus quanto tesão
foi pro vapor da chaleira.

Pois que ao olhar do lado
sentindo forte arrepio
meu compadre o que viu
não gosto nem de lembrar
passagem dele a contar
chorando que nem criança
homem forte, de sustância
perdeu o jeito e a vergonha
 parecendo uma pamonha
ao falar da circunstância.

Que a noiva de Bernardino
cidadinha malfadada
feia e mal assombrada
se agarrou ao meu compadre
que por infelicidade
já conhecia a história
não vendo no abraço glória
só terror e pantomina
mesmo ela sendo a menina
pra motivo de vitória.

Fez dele gato e sapato
divertiu a não mais poder
 queira ou não você crer
a morte é coisa mandada
não se amofina por nada
tinhosa como ninguém
acha estar fazendo o bem
inda caçoou do compadre
debochando de suas partes
não deu por elas vintém.

O homem que era garanhão
bom de traia e safadeza
impertinente o beleza
hoje vive capengando
nos cantos se lamentando
com sua cara de choro
conta que não deu no coro
nunca mais na sua vida
por conta da morte bendita
numa noite de sufoco.

Tere Penhabe
Santos, 11/04/2006_11:00 hs





de Tere Penhabe

Só de lá da minha terra
onde nasci e me criei
daria a volta no mundo
histórias que eu já contei
inda que eu viva cem anos
e gastá-los só contando
sobra história, que eu sei.

Lá ainda é bom lugar
de fina hospitalidade
mas não deseja voltar
quem saiu lá da cidade.
Um a um todos lá somem
gato, cachorro e homem
essa é a grande verdade.

Os dias são sonolentos
tem as horas preguiçosas
o relógio só trabalha
à custa de muita prosa.
Tartaruga lá é atleta
não se vê nem bicicleta
é como viver na roça.

Mas é sorte que os domingos
são dias de novidade
 ninguém permanece em casa
vão na praça da cidade
onde estão os furacões
jogadores e os peões
razão de felicidade.

Foi assim que eu conheci
o amigo Tião Medonho
de sorriso tão bonito
nunca vi ele tristonho
inclusive não entendia
o porque dessa arrelia
de apelido tão bisonho.

Tentando compreender
o motivo eu perguntei
ao que o  falecido disse
espere que inda vai ver
no dia do futebol
nem que faça muito sol
Medonho há de conhecer.

Chegou o dia esperado
na Fazenda Santa Inês
do jogo tão afamado
o tal de melhor das três.
Me parecia enfadonho
chamar Tião de Medonho
pra mim era malvadez.

O time já tinha fama
de não haver quem derrube
formado ali na fazenda
"Vai quem qué futibor clube"
mas ninguém jogava nada
nele, a grande cartada
Tião Medonho: o insalubre!

Era tal a curiosidade
dava até um faniquito
nisso vi o Tião chegando
parecia um eucalipto
pra mais de metro e oitenta
no jeitão meio polenta
medonho só o apelido.

Era gigante esse homem
tanto quanto o coração
com o seu sorriso lindo
do povo apertando a mão.
Sua cor negra reluzia
com aquela voz macia
beijando o seu medalhão.

Nem bem o juiz apitou
eu comecei a entender
o trunfo de Tião Medonho
pra tanto jogo vencer
no campo, aquele homem
foi virando lobisomem
ah coisa ruim de se ver.

Os minutos foram indo
Tião foi se transformando
ajuntou as sombrancelhas
um demônio foi ficando
nunca vi nada mais feio
e no campo, bem no meio
seu grito foi ribombando.

Aquele moço bonito
de sorriso encantador
se evaporou rapidinho
ficou um rei do terror
mas a ninguém maltratava
e se ali ninguém passava
era só pelo seu furor.

Quando o time adversário
tentava se aproximar
Tião meio que arrepiava
o peito punha-se a inchar
e gritava em desacato:
-Sai da frente senão eu mato!
não tinha um pra ficar.

Nisso, em volta do campo
vitória era mais que sonho
homem, criança, mulher
ninguém ali era tristonho
nem um sequer duvidava
que aquele jogo ganhava
por conta do Tião Medonho.

Pois os que não o conheciam
no campo se arrepiavam
batiam o joelho e tremiam
de medo quase cagavam
porque mais feio que aquilo
só o capeta num cochilo
de lendas que lá contavam.

Claro que no fim do jogo
Tião era ovacionado
aplaudido pelo povo
e no campo carregado
mas era contra a vontade
pois sua sinceridade
fazia-lhe envergonhado.

Dizia ele insistente
pro povo daquela aldeia
 futebol eu não entendo
nem mesmo bola de meia
se o time foi campeão
a culpa não é minha não
-Sou campeão da cara feia!

Tere Penhabe
Santos, 22/04/2006_01:20 hs




de Tere Penhabe

Esta já é uma história
que me benzo ao começar
é história de arrepiar
sem nenhum riso nem glória
não consiste em vitória
 da vida foi um lamento
quiçá meu maior tormento
escrita com sangue e dor
de alguém que era meu amor
me marcou seu sofrimento.

Teve a sua hora torta
numa tarde de domingo
quase na hora do bingo
já havia baixado a porta
 a lida estava morta
lá no Empório Brasil
onde a vida por um fio
não acabou pra nós dois
nesse dia e também depois
que a vida é um leito de rio.

Veio o Seu João Mendonça
co'aquela prosa comprida
de estar difícil a vida
que lá na água da Onça
quebrara a geringonça
que era seu ganha pão
trator de segunda mão
enfim, o que ele queria
mas que não me convencia
era passar um problemão.

Trouxe a égua com fobia
pra ofertar ao falecido
por sua conta vencida
que mais negócio seria
perdoar tal mixaria
se uma bola de cristal
que eu sei que não é normal
 mostrasse quanta sangria
que o tal negócio faria
em nossa vida afinal.

E chegado o mês de agosto
teve seus dias marcados
de nós dois o triste fado
que nos deu tanto desgosto
tirou a alegria do rosto
quando se deu o tal fato
o acidente malfadado
por conta de teimosia
da égua ele cairia
vi nosso sonho rasgado.

Deitado na ribanceira
aquela égua o deixou
por pouco não o aleijou
inda me dá tremedeira
lembrando a desgraceira
que na vida se abateu
a esperança que morreu
vendo-o ali desmaiado
meu marido tão amado
junto ao sonho dele e meu.

Completamente perdida
sem saber como fazer
o seu corpo eu esmurrei
gritei que voltasse à vida
que não fugisse da lida.
Disse mais tarde o doutor
quando explicou tal teor
que foi naquele momento
de horror e sofrimento
que para a vida voltou.

Muito tempo passou mal
antes de poder andar
quando pode, foi buscar
notícias do animal.
Mas o golpe foi brutal:
no lugar da sua morte
quem tivera menos sorte
fora a égua e o caseiro
mortos no mesmo terreiro
onde ele fora tão forte.

Vi-o cair em desatino
tentou, não compreendeu
que teia sua vida teceu
pra turvar o seu destino...
foi peão desde menino.
Nunca voltou ao normal
pois não achava casual
tudo que lhe aconteceu
e porque sobreviveu
achava paradoxal.

Por isso conto a história
ele já encontrou a morte
pois foi pouca a sua sorte
terminou a trajetória
mas chegou até a vitória.
Seguindo no meu caminho
veio a ser um peregrino.
Pensei tê-lo libertado
não quis ficar ao meu lado
ninguém foge do destino.

Tere Penhabe
Santos, 22/04/2006_6:00 hs




de Tere Penhabe

Há tempos estou no banco
é verdade, eu não nego
mas cheguei ainda moça
cheia de salamaleco
buscava o homem ideal
botei anúncio no jornal
cacei até no boteco.

O primeiro que apareceu
veio montado à cavalo
com um chapéu Panamá
o coração deu embalo
pra que tinha que descer
que  então vi aparecer
os defeitos do tal gajo.

A bota de cano longo
escondia o despreparo
daquela  perna de pau
ninguém ali pôs reparo
e eu chorava sentida
o homem da minha vida
carecia ser intacto.

Veio a outra tentativa
do príncipe encantado
num baile da fazenda
era sonho realizado
moço forte e disposto
não podia dar desgosto
esse era fava contada.

Quando ele pra mim olhava
naquele jeito matreiro
a galera se assanhava
e eu falava, vi primeiro
devem ter feito vodu
que depois do sururu
só sobrou mesmo é zoeira.

Mais tarde quando chegou
ao abrir a maldita boca
antes não tivesse feito
bobagem ali era pouca
de tudo só aproveitei
as preces que eu rezei
pra não ir dormir de touca.

Se não capricho na reza
sabe Deus onde estaria
que ele disse estar pronto
pra qualquer anomalia
e combinou pra segunda
ir buscar panos de bunda
que eu era o que ele queria.

Saí do baile apressada
sem nem olhar para trás
pois achei que poderia
estátua de sal virar
cheguei em casa correndo
de medo até tremendo
outra dessa, nunca mais.

Já meio desanimada
esperança capengando
por mim que já desistia
do tal homem venerando
decidi ir pro convento
mas a mãe no advento
meu palpite foi cortando.

Você não nasceu pra isso
toma juízo menina
se entra para o convento
bota os padres numa fria
que o meu gado eu conheço
e entre as pedras do terço
vai ser só patifaria.

Sem entender direito
mas dei-lhe toda razão
pois sabia que era o amor
senhor do meu coração
pra ser esposa de Cristo
é certo que o meu pedrisco
transbordava caminhão.

Fui passando pelo tempo
sem ao menos dar por fé
 não dava pra concurso
mas havia quem quisesse
já ameaçava cair
uma coisa aqui e outra ali
eu me apeguei com as preces.

Idéia infeliz da gota
essa que eu acabei tendo
que esse santo da moléstia
eu nem estava sabendo
teve lá um piripaque
largou reza e no atabaque
união andou fazendo.

Dessa vez veio à cavalo
o meu legado castigo
não se faz para ninguém
o que o santo fez comigo
me deu um marido gago
 além de tudo era bravo
e nunca foi entendido.

Tentar bem que ele tentou
nunca saiu do pa pa pa
eu perdi a paciência
noutro canto fui caçar
esse tal de homem ideal
é feito folha de jornal
só vale no dia que sai.

Chego sempre atrasada
que até já me conformei
mas nunca vou desistir
que uma notícia lerei
pode ser até antiga
mas largada na vida
sem B.O. ou trelelê.

Ainda dou uma meia-sola
eu afirmo e não arredo
o meu espelho é meu chapa
por isso esse é meu credo
com tudo bem em cima
corpinho de bailarina
pra dançar ala do frevo.

Tá certo que de baiana
mas isso não interessa
com o aval do falecido
que não se acha mais nessa
quem estiver a duvidar
que vá por ele procurar
eu por mim não me apresso.

Agora falando sério
preste aqui muita atenção
não existe homem ideal
como mulher também não
somos cheios de defeitos
mas cada um com o jeito
que o outro tem na ilusão.

Tere Penhabe
Santos, 20/07/2006




de Tere Penhabe

Eu saí por muitas vezes
do lugar onde eu nasci
foi lá que perdeu as meias
Judas que aportou aqui
as botas, é quase certo
ficaram bem mais perto
desse rincão pr' onde eu vim.

O cordão umbilical
dessa vez pude cortar
tesoura foi o pôr-do-sol
que abraça as tardes no mar
a alma, a saudade abriga
mas aqui ela não castiga
pra lá só vou passear.

Rever a bela paisagem
que só tem no interior
as pitorescas histórias
que contam com tal ardor
é como estar vendo
de novo acontecendo
fados de amor e de horror.

Nessa última viagem
pude ouvir proseador
Luciano Victorino
na estrada é seu labor
pimenta que ele comeu
só o nome já estremeceu
"PRA CABRA MACHO" sim senhor!

Diz ele que todos temem
o bairro da Mombuquinha
estranha força passeia
se a meia-noite avizinha
seja “bundão” ou valente
esperto ou renitente
todos chamam a mãezinha.

Com ele já aconteceu
aumento aqui a história
deixou cedo sua amada
veio pra cair na esbórnia
mas na moita de bambu
coração fez um rebu
na explosão daquela hora.

Sua moto continuou
alheia ao acontecido
mas ao descer o espigão
avaliou o prejuízo
nada viu estragado
mas a placa tinha ficado
perdida no tal zumbido.

Ele voltou prontamente
sem medo e sem hesitar
a peça era importante
precisava procurar
no capim amarrotado
ele se viu atolado
sem do medo se lembrar.

Lá encontrou meia dúzia
não de placas mas de cruzes
foi tomado de arrepios
nas mais remotas raízes
tá certo que era valente
mas o trem impertinente
tocou-o pra buscar luzes.

Quando o sol chegou à pino
o "cabra-macho" retornou
ele era moço tinhoso
da perda não se conformou
foi vã a sua empreitada
pois além de não achar nada
de mais cruzes se inteirou.

A partir daquele dia
o moço viu explicado
o medo que todos tinham
daquele trecho de estrada
quem ouviu a sua história
contada com tanta inglória
riu até as gargalhadas.

Até porque é estranho
esse tal licenciamento
que no céu andam fazendo
assombrações do momento
vindo aqui pra buscar placas
e fazer mijar nas calças
cabras de muito talento.

Eu porém não acho graça
não por crer ou duvidar
acontece que o menino
fez no tempo eu viajar
que desde a mocidade
perdia a velocidade
meu carro ao passar por lá.

E se isso não bastasse
o casarão ainda está
plantado à beira do rio
o mais antigo do lugar
feito na revolução
sob a mira de canhão
dos soldados a passar.

Lá viveu minha família
meus avós também meus pais
que o moço não sabia
ao sua história contar
e jovem, cheio de ilusão
lá morreu o meu irmão
já há vinte anos atrás.

O medo faz muita coisa
todos sabem, é fatal
morre gente em todo canto
mas voltar não é normal
se existe assombração
confesso de coração
nunca vi, nem bem nem mal.

Mas tenho uma teoria
por tudo que já ouvi
quem for medroso ou "bundão"
deve vir morar aqui
quem morre no mar se vai
e não volta nunca mais
isso dá pra eu garantir.

Nunca ouvi história
dos que aqui se perderam
nas tais ondas furiosas
onde milhões já morreram
imagino que Iemanjá
venha a todos encontrar
em suas horas derradeiras.

Tere Penhabe
Santos, 30/11/2006_9:00 hs





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